Sermão do II Domingo da Quaresma

É esta a vontade de Deus: (…) que vos aparteis da luxúria (…) sem se deixar levar pelas paixões, como os gentios, que não conhecem a Deus. (…)Nessa matéria ninguém fira ou lese a seu irmão, porque de tudo isso se vinga o Senhor, como já vos temos dito e assegurado. Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas sim para a santidade. Portanto, quem desprezar estas instruções não despreza um homem, mas Deus, que vos infundiu o seu Espírito Santo.

(1 Tess. 4, 1-8)

[Imagem: Santo Tomás expulsa, da torre em que estava preso, a moça de má vida]

Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.

Ave Maria…

Nesta Quaresma nos parece proveitoso algumas palavras sobre os pecados capitais, suas características, os frutos ruins que produzem em nós, e o modo de combatê-los. E, pelo tema da Epístola e do Evangelho de hoje, a Providência nos dá a ocasião de iniciarmos pela luxúria, fazendo-nos vê-la por outros ângulos.

Santo Tomás enumera oito consequências da impureza: 1. Cegueira da inteligência: que faz com que a pessoa não se dê conta da gravidade do que faz. Não reflete que prejudica seriamente a sociedade, lesando a geração e a educação dos filhos, a amizade entre os esposos, o modo como vê o casamento e como o levará adiante, nem o modo como vê e considera as pessoas a sua volta; 2. Precipitação: A pessoa não recebe com docilidade os conselhos que lhe dão; 3. Inconsideração das punições que Deus dá aos impuros; 4. Inconstância: Como a pessoa está muito apegada ao prazer, desiste fácil de qualquer propósito ou atividade mais séria, porque exigem sacrifício e são desagradáveis em muitos pontos; 5. Amor sem ordem e medida aos prazeres sensuais, fazendo deles o eixo da vida; 6. Apego a esta vida, porque quer muito se beneficiar do que este mundo dá (transparecendo em medo de morrer, em pânico diante de qualquer doença, na preocupação enorme por estar em boa saúde, em jamais fazer qualquer coisa que possa comprometer um pouco que seja a saúde, etc.); 7. Horror e desespero diante da outra vida, onde não haverá mais os prazeres que busca, e onde será punida por ter desprezado a Deus nesta vida, desprezando sua Lei; 8. Ódio de Deus, vendo que não quer se corrigir e sabendo, ao mesmo tempo, que será punida por Deus, o que faz com que veja a Deus, finalmente, como um inimigo.

Cegueira, precipitação, inconsideração e inconstância,
Ama o corpo e o tempo presente, foge do tempo futuro e de Deus.

Os sacerdotes têm o dever de ensinar os remédios que devem ser usados contra a luxúria. Como já falamos em outras ocasiões, estas questões devem ser expostas com cautela, sobretudo em público, para não ofender o pudor. Ao mesmo tempo, a instrução não deve ser tão pouca que acabe sendo insuficiente em uma questão que, infelizmente, diz Santo Afonso, é tão frequente nos confessionários e que leva a maioria das almas para o inferno.

  1. O primeiro remédio é fugir do ócio. Primeiramente, porque o cansaço físico e o hábito de trabalhar duro, por si só, já diminuem as quedas e o apreço pelo prazer. Mas se só isso bastasse, não haveria pecados contra a pureza entre os trabalhadores braçais, da construção civil, e os militares. Com relação à castidade, a principal eficácia de se manter ocupado está em que isso ocupa a imaginação. A imaginação nunca está quieta. Ela sempre procura alguma coisa para se ocupar. Se a deixamos vazia, ela procurará algo para passar o tempo de acordo com a má inclinação que já tem. Como está má inclinada, bem rápido nos colocará em situação complicada.
  2. Todos os moralistas dizem que é necessário cortar com os romances, novelas, filmes. No concreto, todos têm cenas de namoros, beijos, e coisas piores, em abundância. O enredo é construído de um modo onde os personagens veem uns aos outros sob a ótica dos interesses baixos. As relações entre as personagens são regidas pelo sentimentalismo romântico e pela busca do outro como alguém pelo qual eu tenho interesse sensível. A psicologia dos personagens é defeituosa, concebida para funcionar sob a ótica do mundo, da impureza, e não da virtude. Isso dá, para quem lê e assiste essas coisas, um conceito do que é amar, e gostar de alguém, completamente carnal, nada católico, e isso é uma verdadeira catástrofe nas suas consequências reais: fuga do casamento, contracepção, aniquilação da noção de caridade, de espírito de sacrifício, coisas sem as quais é impossível existir sociedade humana e Igreja.
  3. Fugir da familiaridade com pessoas do outro sexo, mesmo se são pessoas devotas. Os rapazes, quando ficam andando com as moças com as moças e tendo familiaridades com elas, adquirem hábitos e modos de ser que são realmente desagradáveis: ou ficam efeminados, ou ficam com um modo de ser que mais parece com o de um libertino, e isso se percebe. Ou ficam com os dois defeitos ao mesmo tempo… As moças devem ter muito claro que o sentimentalismo precisa ser aniquilado. Sendo bem concreto, dessa vitória contra o sentimentalismo dependerá, muitas vezes, a sobrevivência delas. Quando um rapaz desonesto se dá conta de que uma moça é sentimental, ele se aproveita disso, alimenta isso. Depois as coisas acabam escorregando para faltas maiores, até o dia em que o rapaz vai embora. Consequência: a moça, depois de se ver enganada, concebe aversão do casamento; uma ideia de que os homens são todos desonestos; ela mesma fica com dificuldade de conseguir amar alguém de modo correto, porque a experiência passada cria nela um bloqueio para isso; fica uma pessoa irritada, de temperamento azedo, porque não consegue digerir o que passou; e tudo isso reflete em volta dela, e as pessoas à sua volta (amigos, familiares, marido e filhos, depois de casar, etc.) acabam sofrendo em muitas coisas por causa disso.

Quanto aos noivos, o conselho mais eficaz do mundo é: fujam de ficar sozinhos. O Pe. Luís Carlos Lodi, padre de muita experiência, em um de seu livros, lembra aos noivos de que eles jamais devem ficar sozinhos, nem devem andar de carro juntos, sem outra pessoa que os acompanhe.

  1. Oração frequente, porque nos dá conhecimento maior e mais claro das coisas de Deus, e maior amor por elas, tirando nosso interesse pelos prazeres deste mundo, como vemos no Evangelho de hoje, onde São Pedro, tendo maior conhecimento de Jesus Cristo pela sua transfiguração, concebeu tanto amor por Deus que não queria mais sair de lá.
  2. Comunhão frequente; Confissão frequente, com o mesmo confessor (que, conhecendo bem a alma, pode ir adaptando os remédios e conselhos mais eficazes), antes de cair: quando vemos que as tentações começam a ficar mais fortes, começamos a demorar para combatê-las, mas ainda não consentimos nelas, ou quando as combatemos, mas com certa negligência. Se nos confessamos dos nossos outros pecados, mas antes de cair nas faltas contra a pureza, aí estamos de fato desenraizando nosso mau hábito, ao invés de somente podarmos o que já cresceu. E, quanto aos pecados contra a pureza, nunca é demais insistir nisso: os padres nunca ficarão indignados, bravos ou escandalizados com eles, nem veremos o penitente de modo diferente após a confissão. A única coisa que queremos é que a vontade do pecador tenha mudado, e ficaremos edificados. Só isso.
  3. Lembrar da morte e do juízo. Devoção por Nossa Senhora, que é Mãe do belo amor. Guardar os sentidos, sobretudo os olhos. Mortificação.
  4. Ver os outros de modo elevado e sobrenatural. Muita coisa na nossa vida depende de como as vemos. Uma das coisas que leva as pessoas a cometer pecados contra a pureza é o fato de que consideram os outros à sua volta de um modo muito baixo. Isso não pode ser assim. São Paulo via muito bem que o modo como vermos as pessoas é decisivo para guardar a castidade ou ir contra ela: “Que cada qual saiba tratar a própria esposa com santidade e respeito, sem se deixar levar pelas paixões, como os gentios, que não conhecem a Deus. Nessa matéria ninguém fira ou lese a seu irmão (…) Pois Deus não nos chamou para a impureza, mas sim para a santidade. Portanto, quem desprezar estas instruções não despreza um homem, mas Deus, que vos infundiu o seu Espírito Santo” (1Tess. 4, 4-8). Para São Paulo, guardar a castidade é algo muito ligado ao modo como vemos os outros. Queremos guardar a pureza? Então é necessário nos dar conta de que a outra pessoa é ou será uma mãe e esposa, ou um marido e um pai; de que ela tem uma alma que foi concebida por Deus desde toda a eternidade para se salvar; de que Deus a criou tendo por ela um amor infinito, e planos tão nobres que não somos capazes de conceber quais são, nem a profundidade deles; de que Cristo morreu por essa pessoa, e de que ela tem o sangue de Nosso Senhor sobre ela, de que ela participa, pela graça, da vida de Deus. É necessário refletir sobre essas coisas, e ver as pessoas como Deus as vê, e não como o demônio quer que as vejamos.
  5. Ver-se de modo elevado e sobrenatural. Se uma pessoa não se vê, igualmente, como tendo uma alma imortal, capaz de ver Deus no Céu, sobre a qual tem o sangue de Cristo, feita para conhecer a verdade e ser feliz assim, capaz de ser filha de Deus, então essa pessoa buscará atrair para si os olhares dos outros pela animalidade que tem, e não procurará se mostrar como filho(a) de Deus. Isso será visível nos assuntos de suas conversas, no modo de tratar os outros, na roupa que usa, nas qualidades próprias que ressaltará. É possível ver pessoas que chegam ao ponto de “cultivar” a pouca inteligência que têm, mostrando-se voluntariamente aos outros como uma pessoa burra e destacando a própria beleza física, vendo um charme nisso…

Podemos concluir com Santo Afonso: “Nesta questão, é necessário, tanto quanto possível, usar de muita firmeza. Em coisa tão fácil de cair, nenhuma cautela é demais. Muitas opiniões, sobre o que é permitido, são verdadeiras; mas na prática, por causa da fraqueza humana, não devem ser usadas. O confessor deve saber que algo, em princípio, pode não ser pecado grave, mas vendo que oferece perigo real ao fiel, não deve permitir que seja feito” (Homo apost., trat. IX).

Em nome do Pai e do Filho + e do Espírito Santo. Amém.

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